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Somos seres Antropocenígenos alterando o ciclo geológico do planeta

By Raymond

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O que é o antropoceno, a época em que os humanos tomam controle do planeta

Em 2016, cientistas poderão decidir mudar a época geológica da Terra. Entenda o porquê

Em 2016, geólogos do mundo todo se reunirão em uma convenção internacional para tomar uma decisão curiosa. Eles decidirão, no voto, se o planeta Terra mudou de época geológica. Será que nós deixamos para trás a época atual, conhecida como holoceno, e entramos em uma nova época? Alguns pesquisadores acreditam que sim. Para eles, a humanidade modificou o planeta Terra de forma tão intensa que nós entramos no antropoceno, a época em que humanos substituíram a natureza como a força ambiental dominante na Terra.

O antropoceno é um conceito novo, proposto pela primeira vez pelo químico holandês Paul Crutzen. Especialista em química atmosférica – ele ganhou o Nobel em 1995 pelos seus estudos sobre a camada de ozônio –, Crutzen estava familiarizado com a forma como a atividade humana estava mudando a composição da atmosfera. Ao lançar fumaça de automóveis, chaminés e queimadas, a humanidade mudou a composição do carbono na atmosfera, provocando um aumento de temperatura de 1ºC, o derretimento das geleiras e o aumento do nível do mar em, até o momento, 20 centímetros. Isso sem falar em como a humanidade alterou fisicamente o planeta, com concreto e aço. Um exemplo claro são os rios: nas últimas décadas, transformamos os cursos de rios de todas as bacias hidrográficas do mundo construindo 40 mil barragens. Se os reservatórios de todas essas barragens fossem colocados lado a lado, teríamos uma área alagada equivalente ao Estado da Bahia.

O impacto humano no meio ambiente é evidente. Mas será que essas mudanças são realmente intensas e duradouras a ponto de ficargravadas na rocha? É isso que os geólogos discutem. Um grupo de trabalho foi criado para estudar se há evidências que justifiquem uma mudança de época. Esse grupo, liderado pelo pesquisador britânico Jan Zalasiewicz, da University of Leicester, apresentará no ano que vem um relatório recomendando ou não a mudança de época.

Por telefone, Zalasiewicz explicou para ÉPOCA como funciona esse trabalho. Uma mudança de época precisa ser justificada por provas marcadas nas rochas, assim como para qualquer outra época, era ou período da histórica geológica da Terra. Nós sabemos que a era do gelo acabou (o pleistoceno) porque a retração do gelo pode ser identificada na Groenlândia. Nós sabemos que o período cretáceo acabou, há 66 milhões de anos, porque entre uma rocha e outra há elementos químicos que só podem ser explicados pela queda de um meteoro – o mesmo que exterminou os dinossauros. Ora, se os seres humanos se tornaram o principal motor do planeta, isso tem de ficar marcado, de alguma forma, no estrato geológico. Zalasiewicz parece convencido de que é esse o caso. “Quanto mais você olha a evidência, mais você percebe que mudanças substanciais estão acontecendo nos registros geológicos no momento”, disse.

As cidades talvez sejam o exemplo mais visível do impacto humano. O asfalto, as luzes, os gigantescos arranha-céus fazem o contraste com as áreas naturais. Segundo Zalasiewicz, uma cidade construída em áreas altas ou montanhosas provavelmente não será preservada após milhões de anos do tempo geológico. A erosão e o tempo a apagarão do mapa. Porém, é possível que outras cidades persistam, criando paisagens humanas inteiras fossilizadas. “Cidades como Nova Orleans, Amsterdã, provavelmente Xangai, têm grandes chances de que suas fundações sejam fossilizadas porque elas estão afundando”, diz. Muitas evidências da passagem humana pelo planeta não são visíveis aos olhos, mas são igualmente impactantes: nós até mesmo mudamos a porcentagem de elementos radiativos presentes no planeta, graças a explosões de mais de 2 mil testes de bombas atômicas. Não por acaso, Zalasiewicz sugere que a data do início do antropoceno poderia ser 16 de julho de 1945, o dia do primeiro teste da bomba atômica na história.

Pôr do Sol em Nova York, Estados Unidos. Cidades são a face mais visível do impacto humano no planeta (Foto: Mike Stobe/Getty Images)

Pôr do Sol em Nova York, Estados Unidos. Cidades são a face mais visível do impacto humano no planeta (Foto: Mike Stobe/Getty Images)

A arquitetura do Museu do Amanhã no Rio de Janeiro. Os traços lembram uma bromélia da Mata Atlântica (Foto: Reuters)

A arquitetura do Museu do Amanhã no Rio de Janeiro. Os traços lembram uma bromélia da Mata Atlântica (Foto: Reuters)

Mesmo com todas essas evidências, o antropoceno ainda não é um conceito científico formal. O grupo de trabalho liderado por Zalasiewicz apresentará os resultados no próximo ano, e geólogos de todo o mundo, reunidos em uma convenção da International Commission on Stratigraphy, votarão se concordam ou não com os resultados. Mas enquanto a geologia caminha a passos lentos – afinal uma montanha não surge do dia para a noite –, o debate do antropoceno continua em velocidade industrial. Para ativistas e ambientalistas, a ideia da nova época praticamente reúne tudo o que eles vêm argumentando há décadas: de que a atividade humana está interferindo tanto no planeta que coloca em risco a própria sobrevivência da humanidade. O termo também começou a ser usado por cientistas de várias áreas. Já há, hoje, três revistas científicas dedicadas exclusivamente a artigos sobre a nova época humana. Aqui no Brasil, um museu dedicado especificamente ao tema é inaugurado no Rio de Janeiro, o Museu do Amanhã.

“É um museu de ciência aplicada”, diz Luiz Alberto Oliveira, pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e curador científico do Museu do Amanhã, uma iniciativa da Prefeitura do Rio, Banco Santander e da Fundação Roberto Marinho, ligada ao Grupo Globo, que publica ÉPOCA. O principal pilar do museu será a ideia do antropoceno. A exposição permanente terá totens de 10 metros de altura, todos eles passando imagens do impacto do homem no planeta. O objetivo não é apenas fazer o visitante refletir sobre o tema, mas também mostrar que as escolhas de hoje definirão o futuro. Reportagem de ÉPOCA conheceu o museu e mostra como ele funciona. “O visitante vai sondar possibilidades de Amanhã. Diferentes cenários possíveis que são construídos a partir das decisões que tomamos hoje”, diz Oliveira. Essa conscientização será importante para a tarefa mais difícil que a humanidade encontrará nesta nova época: se adaptar.

Segundo Carlos Nobre, presidente da Capes e único pesquisador brasileiro que participa do grupo de trabalho do antropoceno, a vida na época humana será mais difícil e complexa do que foi no holoceno. Buscar se adaptar a esse novo cenário é inevitável. Infelizmente, o Brasil está pouco preparado para esse desafio. “O Brasil é país de média vulnerabilidade às mudanças ocorrendo ou projetadas no antropoceno. Entretanto, não estamos preparados para responder às mudanças projetadas, o que diminuirá a resiliência social, econômica e ambiental”, disse, em conversa com ÉPOCA por email.

Nobre cita como exemplo o aumento do nível do mar. Segundo o painel de cientistas da ONU que estuda o clima, se a temperatura do planeta aumentar em 3ºC, o que é provável, o nível do mar pode aumentar entre 7 a 10 metros. Só que a ciência ainda não sabe quanto tempo isso demoraria para acontecer. Pode levar mil anos, ou pode acontecer em poucas décadas. As cidades costeiras precisam começar a se preparar para isso, sob o risco de desaparecer debaixo das águas.

Outra característica marcante da vida no antropoceno, segundo Nobre, será o aumento da frequência dos fenômenos climáticos extremos. Isso já está acontecendo. 2015 deverá bater uma série de recordes climáticos nunca antes registrados pela ciência. Será o ano mais quente da história, com perspectiva de ser cerca de 1ºC mais quente do que a temperatura do planeta antes da industrialização. Também é o ano em que mais se registraram furacões das categorias mais fortes no mundo. O mais recente deles, no México, foi um dos mais fortes já formados na região, mas felizmente se dissipou antes que pudesse causar estragos. Secas como as que acontecem em São Paulo e no Nordeste, e tempestades como as que castigam o Sul do Brasil serão mais frequentes.

Imagem de satélite mostra produção agrícola no meio do deserto na Arábia Saudita. Produção só é possível no deserto com uso de irrigação intensiva e tecnologia agrícola (Foto: Nasa)

Imagem de satélite mostra produção agrícola no meio do deserto na Arábia Saudita. Produção só é possível no deserto com uso de irrigação intensiva e tecnologia agrícola (Foto: Nasa)

Como lidar com esse novo mundo humano? O primeiro passo é controlar os impactos da atividade econômica no clima. A Conferência do Clima em Paris, que fechou um acordo para limitar o aquecimento global, é um bom ponto de partida. Mas toda a sociedade precisa se engajar nos quatro “zeros”: emissões, desmatamento, lixo e extinção zero. Precisamos zerar nossos impactos mais danosos e “descasar” o crescimento econômico da geração de lixo e poluição, permitindo assim crescimento econômico eterno. Para um grupo de pesquisadores e ativistas americanos, isso permitiria “abraçar” o antropoceno.

Em abril de 2015, o Breakthrough Institute, um think tank da Califórnia, publicou um documento batizado de Manifesto Ecomodernista defendendo a curiosa ideia de que o Antropoceno pode ser, afinal de contas, bom. O manifesto tenta desfazer a ideia de que os seres humanos essencialmente são seres destruidores da natureza. Eles argumentam que, se os humanos têm o poder de alterar a escala geológica do planeta, eles poderiam fazer isso para o bem: usar a tecnologia para corrigir os danos ambientais causados pelo homem. Argumentam que uma intensificação da atividade econômica e o uso de técnicas controversas, como a energia nuclearou alimentos transgênicos, aumentará a produção sem expandir para novas áreas, mantendo florestas preservadas e impedindo as extinções de espécies. “O antropoceno pode ser bom se humanos usarem o crescente poder econômico, social e tecnológico para melhorar a vida das pessoas, estabilizar o clima e proteger a natureza”, diz o manifesto.

Se a nova época humana é a prova de que a nossa espécie falhou ao proteger sua única casa ou uma oportunidade para que a humanidade tome as rédeas do planeta, ainda está aberto a debate. O que parece certo é que nossa interferência na Terra é tão grande, intensa e duradoura que de fato entramos em uma nova época geológica. Adaptar a esse novo cenário será crucial para manter bem-estar e riqueza dos mais de 11 bilhões de humanos que herdarão o planeta no próximo século.

Antropoceno, a Humanidade como uma força planetária

Impacto da ação humana na Terra é comparável a meteoro que dizimou dinossauros, diz cientista que lidera grupo de atrabalha que avalia adoção oficial

Bombas de petróleo em campo de extração nos EUA: queima de combustíveis fósseis pela nossa civilização mudou ciclo natural de carbono do planeta, num dos sinais que ficarão registrados nos estratos geológicos por milhões de anos - AP/Eric Gay

Bombas de petróleo em campo de extração nos EUA: queima de combustíveis fósseis pela nossa civilização mudou ciclo natural de carbono do planeta, num dos sinais que ficarão registrados nos estratos geológicos por milhões de anos – AP/Eric Gay

Quando se fala em fenômenos geológicos, vêm à mente eventos poderosos, como erupções vulcânicas e terremotos, ou processos lentos, como a erosão e o depósito de sedimentos em rios, lagos e oceanos. Mas poucas pessoas imaginavam que a Humanidade mudaria a face da Terra de forma tão abrupta que poderia ser considerada uma força de transformação planetária equiparável ao meteoro que dizimou os dinossauros há cerca de 66 milhões de anos. É isso, porém, que observam as dezenas de cientistas do grupo criado pela Comissão Internacional de Estratigrafia (ICS), mais antigo órgão científico da União Internacional de Ciências Geológicas (IUGS), para montar a proposta para adoção oficial do Antropoceno, a “era dos humanos”, no sistema de divisão do tempo geológico do planeta, sucedendo a época atual, o Holoceno.

— Vivemos numa época em que as pessoas afetaram tanto os processos geológicos da Terra, em alguns casos de forma tão permanente, que estamos criando um novo tipo de geologia, um novo estrato com fósseis, um padrão da química nas rochas e outras evidências do tipo — conta ao GLOBO o cientista Jan Zalasiewicz, professor da paleobiologia da Universidade de Leicester, no Reino Unido, e presidente do grupo de trabalho da ICS, que apresentará a proposta no próximo Congresso Internacional de Geologia, em agosto, na África do Sul. — Se tivermos geólogos daqui a 1 milhão de anos, ou mesmo 100 milhões de anos, eles verão o estrato que representa esta época em particular e reconhecerão que algo aconteceu, que o mundo mudou, assim como quando um meteoro atingiu a Terra e extinguiu os dinossauros há milhões de anos.

Segundo Zalasiewicz, embora algumas evidências sejam facilmente discerníveis hoje, elas não são tão relevantes diante da enorme escala do tempo geológico. É o caso, por exemplo, dos elementos radioativos espalhados a partir da explosão das primeiras bombas atômicas nos anos 1940, ou o ar com alta concentração de dióxido de carbono preso no gelo polar e de glaciares pelo mundo. Outras, no entanto, têm um caráter que as tornam potencialmente muito mais duráveis, ou mesmo permanentes, e devem servir de base para a decisão sobre a oficialização do Antropoceno. Neste grupo, ele destaca as alterações radicais que a Humanidade fez na biosfera, tanto com o extermínio de espécies de animais e plantas numa velocidade só vista nas grandes extinções em massa do passado quanto com a sua redistribuição pela superfície da Terra.

— As alterações que estamos fazendo na distribuição das espécies de animais e plantas no planeta é impressionante, de uma forma muito mais abrangente e efetiva da que qualquer outro processo geológico no passado — comenta ele.

Essa transformação seria vista pelos geólogos do futuro como uma mudança distinta, e até mesmo severa, diz o pesquisador. Além disso, foi desencadeado um ritmo de extinção de espécies comparável a eventos anteriores de extinção em massa.

— Creio que essas mudanças serão observadas mais facilmente no futuro distante por serem permanentes. Ao estudar a biologia do planeta, o futuro geólogo poderá ver que uma modificação muito grande, novamente como o impacto do meteoro que extinguiu os dinossauros. Este evento único em um momento específico mudou o curso da História biológica da Terra de forma que todos os fósseis nos estratos acima da camada do impacto são diferentes. Estamos fazendo algo parecido hoje.

Um estudo publicado ontem na revista “Nature” dá conta de que o impacto da Humanidade é capaz de adiar em até 100 mil anos o início da próxima Idade do Gelo. O último ciclo glacial acabou há 11,7 mil anos. De acordo com os cientistas do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre o Impacto Climático (PIK), na Alemanha, seria esperado um novo período de esfriamento em algum momento no futuro, mas as emissões de CO2 com a queima de petróleo, carvão e gás estão levando a civilização a “pular” essa fase.

Zalasiewicz cita ainda como um sinal evidente da ação humana na Terra que chegará a um futuro distante a mudança provocada no ciclo natural do carbono pela queima de combustíveis fósseis. Segundo ele, a química das rochas denunciará alterações na forma como o carbono circulou pela Terra, com uma composição isotópica diferente do ciclo padrão de carbono, mostrando que algo aconteceu.

Computadores fossilizados

Na lista de evidências duráveis também está o que o grupo da ICS batizou informalmente de “tecnofósseis”: restos fossilizados dos produtos tecnológicos. São rastros de plástico, cinzas, fuligem e concreto que serão reconhecidamente diferentes de tudo que existia ou aconteceu na Terra antes.

— Os pesquisadores no futuro podem não reconhecer um computador fossilizado, mas perceberão que o contorno de seu teclado, por exemplo, é muito diferente de uma concha ou osso fossilizado. Outra evidência durável é o concreto. O concreto vai se fossilizar muito bem. Cidades como Veneza, Xangai, Amsterdã ou mesmo o Rio de Janeiro estão em locais da crosta terrestre que estão afundando e deverão ser cobertas por sedimentos. Assim, podemos imaginar que porções destas cidades serão fossilizadas no futuro e farão parte do quebra-cabeça que deixaremos para as gerações de geólogos de um futuro distante.

Fonte: O Globo, Época e Milenio

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